O objeto lança para o homem o seu sentido.

Publicado por Lara Ferreira Camacho em 28/12/2017

Vivemos em um e para um sistema fechado. Um sistema que, em última análise, obstaculiza o abrir-se para a experiência e para a possibilidade de aprender com a experiência e, dessa forma, realimenta traumas e contribui sobremaneira para o isolamento, para o desânimo e queda de sentido e de significado da própria vida.

O isolamento das comunidades e a não compreensão do real sentido da coletividade alimenta a ilusão e, por meio da ilusão, o homem tende a controlar, modificar, eliminar fatos históricos, acontecimentos, sentimentos percebidos como perigosos e limitantes. É um fenômeno em que a percepção não vai de acordo com as características reais dos objetos. Cria-se uma pseudo-percepção que aliena e impossibilita. Paracelso, o médico, alquimista, imortalizado de inúmeras formas e sobre o qual tudo possui grandes proporções, surge na Renascença, na tentativa de reorganizar essa percepção.

Paracelso acreditava numa percepção ampla da saúde e da doença, a qual se reafirma ao longo do tempo, sendo a saúde "um completo bem-estar físico, mental e social" e que, portanto, não se adéqua e em nada se assemelha ao modelo cartesiano e vampiresco de fragmentação vigente na forma de "promoção da saúde" nos dias de hoje.

O mundo para Paracelso consiste, tanto em pequena como em grande escala, de partículas vivas, o que ele denomina "entia". As doenças são também para ele entia e se revelam constituintes próprias e necessárias à vida humana, não se tratando apenas de um "corpus alienum". Isso quer dizer que, para curar a doença é necessário compreendê-la para além dos limites da fisiopatologia acadêmica tradicional ensinada como um processo rígido. É necessário se voltar para a natureza. Tudo é Vida!

Para o médico e alquimista, a doença, sendo entia, se assemelha aos elementos da natureza e, através desses elementos correspondentes ao organismo humano, concebidos por ele como "arcanos", encontramos a cura para as enfermidades. Nesses arcanos, habitam as respostas às enfermidades humanas, reafirmando que a cura das doenças podem e devem ser encontradas através do sincronismo entre os elementos naturais e o organismo humano adoecido.

Em síntese, as coisas externas indicam e denunciam aquilo que o homem sofre (aquilo que provoca a doença) através da cura.

"O objeto lança para o homem o seu sentido.

Voltem-se para a luz Natural."

A terapia de Paracelso consistia nos elementos da natureza, no conhecimento da natureza de si e do outro, extremamente necessários para a obtenção da cura. Sua concepção anatômica do corpo humano era, acima de tudo, uma concepção correspondente à natureza que ele mesmo conhecia. Paracelso nos ensina que, aquilo que o médico tem a dizer ao doente, provém da própria natureza do médico, o qual deverá ser completo, e do contrário, nada poderá descobrir.

"Aquele que nada sabe, nada ama. No entanto, aquele que compreende, este sim, ama, percebe e vê."

Antes de mais nada, é preciso mencionar que, para Paracelso, o afeto deve ser inato à todo o processo de cura e, consequentemente, ao médico.

E onde não existir afeto, não haverá arte.

Sem arte, não haverá cura, e sim, crueldade.