A POTENCIA CRIADORA DA ARTE-TERAPIA COMO INSTRUMENTO DE ENCONTROS E VIVENCIAS NA TROCA DE CONHECIMENTOS SOBRE OS MULTIPLOS FAZERES DA PSICOLOGIA.

Publicado por Débora Sousa martins em 11/12/2017

RESUMO Este trabalho foi constituído sob a forma de um relato de caso no qual, através da apresentação de várias práticas realizadas por psicólogos e outros profissionais em diferentes cidades e regiões do Brasil. As práticas foram observadas e vivenciadas em diversos encontros entre os anos de 2015 e 2017, constituindo em um conjunto representativo da diversidade de intervenções que se encontram sendo realizadas através da Arte-terapia. Os grupos observados são formados por usuários de centros de acolhimento e assistência social, hospitais e instituições psiquiátricas entre outros. A partir disso, este trabalho tem como objetivos realizar uma apresentação da multiplicidade de formas de se intervir em Arte-terapia, demonstrando a potencialidade que esta intervenção pode proporcionar no cuidado ao sofrimento mental.

1. INTRODUÇÃO

Tema de discussões de filósofos e cientistas dos tempos remotos até os dias atuais, a arte tem, ao longo de toda a existência do ser humano, exercido fundamental papel na expressão da cultura, das representações sociais e dos aspectos subjetivos que afetam os existencialismos individuais. Através da arte o homem expressa emoções, sentimentos e conteúdos afetivos que demonstram, por um lado, o seu potencial criativo para a conversão do abstrato no concreto (PEDROSA & TAVARES, 2009).

Por outro, demonstra a variedade de manifestações das linguagens humanas e seus processos de comunicação. Em relação a esse aspecto, temos no corpo humano uma potencial fonte de manifestações para que aspectos e informações de cunho psicológico possam emergir (VASQUES, 2009). A potencialidade de utilização da linguagem corporal já é conhecida pela psicologia em seus primórdios desde os seus aspectos catárticos na manifestação dos sintomas, em sua utilização como linguagem inconsciente, ou mesmo como forma de criação e escoamento das tensões.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, já atribuía grande importância para arte ao colocar que “a psicanálise está em uma posição de aprendiz em relação à arte” (AUTUORI & RINALDI, 2014, p. 311). Considerando a importância do papel da arte dentro da história da humanidade, e o seu valor como instrumento terapêutico, de entretenimento e lúdico (COQUEIRO, VIEIRA & FREITAS, 2010), este trabalho, desenvolvido a partir de um conjunto de encontros e vivencias em diferentes localidades pelo Brasil, volta-se, então, para uma compreensão metodológica que visa investigar qual o papel do exercício das manifestações artísticas dentro de um contexto terapêutico.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A Arte segundo a filosofia: diálogos com Aristóteles, Foucault e Pareyson.

Segundo Vares (2011), Aristóteles, filósofo grego da antiguidade, já se referia à arte como um saber científico. Como tal, a arte se encontra dotada de dois aspectos inerentes às ciências: a epistéme (filosofia) e a práxis ou poíesis (ação). No âmbito da relevância, objetivos e funções, as ciências eram divididas em três grupos sendo, a arte, enquadrada na categoria das ciências produtivas. Como tal, a arte simbolizava a ação fabricadora, lidando com o particular e o possível. Seu único objetivo é vencer o acaso e a sua finalidade está fora de si mesma, em um objeto externo.

Aristóteles adotou a linha oposta à de Platão e em sua doutrina de catarse afirmou que as artes proporcionam uma vazão para emoções represadas, que não têm plena vazão natural nas condições de vida social. Mas conquanto as conclusões fossem contrárias, o critério era idêntico. Avaliavam-se as artes em função dos seus efeitos de aprimoramento ou aviltamento do caráter do indivíduo como unidade social e dos seus supostos efeitos sobre o próprio organismo social. (OSBORNE, 1974, p. 125).

Apesar da noção de catarse de Aristóteles antecipar Freud em séculos, sua visão da arte, entretanto, é uma visão voltada para os aspectos científicos, práticos e objetivos. Para Aristóteles, a arte, assim como as outras ciências, é dotada de regras que possibilitam a sua execução (VARES, 2011). O simples fazer ou executar uma ação apenas representa uma técnica, uma norma estabelecida a proporcionar o desenvolvimento da ação produtiva. Por isso, para Aristóteles, a arte em si não representa uma ação de criação libertadora.

Divergindo desta visão, o filósofo e historiador francês Michel Foucault, traz a arte para um patamar muito mais voltado para o campo da reflexão filosófica e para o existencialismo. Segundo Fischer (2015, p. 248), para Foucault, a manifestação artística, através de seus “constantes movimentos de inconformismo com o pensamento (e a vida) estável”, possibilita ao ser humano a transformação e a criação de si. Essa criação transformadora de si proporciona que o artista se torne criador de sua própria história, imprimindo sua marca existencial em uma negação da posição de mero consumidor de criações alheias.

Para Foucault, a criação reflete essa libertação – a qual não foi atribuída por Aristóteles - de uma forma de existencialismo que prima por se encontrar, por se revelar como coisa manifesta no universo, e por movimentar o sentido metamórfico que caracteriza a “arte da existência”. A arte criacionista possibilita um movimento dualista que vai muito além da simples transformação de si e da negação da reprodução:

Por ora, contento-me em sugerir que Foucault era e estava, (...) ocupado com a verdade e com a criação, o que não se separa da ideia de um exercício de força sobre si mesmo, de um trabalho intelectual, ético e estético, que nos coloca numa posição quase de Sísifos, aceitando começar sempre e outra vez nossa jornada, no sentido de um desprendimento de nós mesmos, de uma modificação lenta e árdua em relação àquilo que somos e pensamos. (FISCHER, 2015, p. 947).

No exercício da criação e da transformação, o artista passa por uma reconstrução, “aparece e desaparece; cria a si mesmo e deixa de ser” (FISCHER, 2015, p. 946). Segundo o próprio Foucault citado por Fischer (2015, p. 946): “(...) essa transformação de si por seu próprio saber é, penso, algo bastante próximo da experiência estética. Por que um pintor trabalharia, se ele não é transformado por sua pintura? ”.

A arte em Foucault se encontra compreendida em um nível que ultrapassa a simples e reducionista noção de conceitos, de uma forma muito mais ampla, se pode compreender que o que realmente importa na manifestação é o seu papel na busca do sujeito por uma verdade que não esteja ligada umbilicalmente àquelas verdades reproduzidas e ensinadas mecanicamente pelos disciplinadores de corpos (KIRCHOF, 2004).

“Foucault escrevia para se transformar, e não para pensar a mesma coisa que o tinha ocupado anteriormente” (FISCHER, 2015, p. 958). Além disso, a arte para Foucault, tem a capacidade de manifestar e representar aquilo que Nietzsche denominou de “experiência trágica”, a representação das estruturas da loucura através de uma experiência não-racional (KIRCHOF, 2004). Arte e loucura se aproximam em um sentido de revelação no qual a primeira possibilita que a segunda possa se manifestar em toda a vivificação de seus movimentos de criação e destruição de si.

Para o filósofo italiano Luigi Pareyson, citado por Reis (2014, p. 149), a atividade artística “é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”. Para ele, a arte não é concebida em ideais existentes, mas algo que inova, que incrementa a realidade. Enquanto Aristóteles traz a arte no âmbito das ciências, regida por leis, e Foucault, a coloca como uma experiência estética, existencial e de cunho libertário, para Pareyson, a arte é provida de ambas as concepções: as leis Aristotélicas e a liberdade Foucaultiana:

De uma parte, a atividade artística é invenção, criação, originalidade, isto é, liberdade, novidade, imprevisibilidade: não só não há uma lei que presida à atividade do artista e à qual ele deva conformar-se, mas, antes, a arte é tal justamente pela ausência de uma lei do gênero. De outra parte, a atividade artística implica um rigor, uma legalidade, digamos mesmo, uma necessidade férrea e inviolável: deve, portanto, haver uma lei que, peremptória e iniludível, presida ao êxito e à qual o artista não possa subtrair-se impunemente. (PAREYSON, 1984).

A beleza da arte não se encontra nos padrões e nos ideais, para Pareyson (1984), a beleza apenas consiste em mais uma tentativa de imposição de leis gerais sobre a arte. Nos diz Pareyson (1984): “ a beleza não é lei, mas resultado da arte: não seu objeto ou fim, mas seu efeito e êxito”. Para Suassuna (2008), a arte em Aristóteles assume uma noção de beleza que é objetiva, realista e está no objeto contemplado, não existe ideal, apenas aquilo que, diferindo do caos, detém a grandeza e a harmonia, agradando ao outro.

Nisso se encontra a beleza na arte, em sua capacidade de abarcar formas diversas e harmonizá-las, convertendo-as no belo e no sublime. E é essa noção, a de sublime, que será utilizada como referência da arte no âmbito da psicanálise Freudiana, se encontrando, a arte, ligada ao conceito de sublimação. É através dela que o aparelho psíquico mobiliza essas forças e as organiza proporcionando o surgimento da manifestação. De acordo com Sigmund Freud

Chamamos capacidade de sublimação à capacidade de trocar o alvo que está na origem sexual por outro que já não é sexual, mas é psiquicamente aparentado com o primeiro. (...) A sublimação é um processo que concerne à libido de objeto e consiste em que a pulsão se dirige para outro alvo, afastando da satisfação sexual. (FREUD, 2006, p. 2126).

A arte é o gozo que não pode ocorrer de uma outra forma, ou seja, é um substituto para a satisfação total não alcançada, segundo Autuori & Rinaldi (2014, p. 311), “é através dela que o aparelho psíquico mobiliza essas forças e as organiza proporcionando o surgimento da manifestação”. Com isso, “Freud denuncia que o artista fornece, através de suas criações, as mesmas descobertas que a psicanálise propõe, porém, antecipadamente”.

2.2 Diálogos da arte com a psicologia: a Arte-terapia, um breve histórico.

No início do século XX, Freud, de acordo com Autuori & Rinaldi (2014), se interessou pela arte e postulou que, o inconsciente, se manifesta através de imagens que transmitem significados mais diretamente do que as palavras. Jáno ano de 1913, ele observou que o artista pode simbolizar concretamente o inconsciente na produção artística, retratando conteúdo do psiquismo que, para ele, é uma forma de catarse:

A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio caminho entre uma realidade que frustra os desejos e o mundo de desejos realizados da imaginação – uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acham em pleno vigor. (FREUD apud AUTUORI & RINALDI, 2014, p. 307).

Um fragmento de uma citação de Freud ilustra a importância da arte no rol das capacidades criativas humanas. Segundo esta, Freud afirma haver “...muitas formas e meios de praticar a psicoterapia e todos os que levam à cura são bons.... Eu, dizia ele, não rejeito nenhum destes métodos e faria uso deles se uma ocasião favorável se apresentasse” (AATESP[1], 2010, p. 79).

Segundo Reis (2014), foi Jung o primeiro a utilizar a expressão artística em consultório. Para ele, a simbolização do inconsciente individual e do coletivo ocorre na arte. Na década de 20, recorreu à linguagem expressiva como forma de tratamento e, para tanto, pedia aos clientes que fizessem desenhos livres, imagens de sentimentos, de sonhos, de situações conflituosas ou outras. Para Jung citado em Reis (2014, p. 151), “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato”.

Mas não foram apenas Freud e Jung que contribuíram para a fundamentação da Arte-terapia, de acordo com a AATESP (2010), dois grandes psiquiatras brasileiros também o fizeram: Osório César e Nise da Silveira. Osório César, em 1923, trabalhou com arte no hospital do Jugueri (Franco da Rocha – SP), sob a influência da psicanálise freudiana publicou “A arte primitiva nos alienados”. Em 1927 publica “Contribuição para o estudo do simbolismo místico nos alienados”, “Sobre dois casos de estereotipia gráfica com simbolismo sexual”. “A expressão artística nos alienados” é publicada em 1929.

Em 1946, Nise da Silveira, que trabalhava no Centro Psiquiátrico D. Pedro II, procurando compreender as imagens produzidas pelos pacientes sob a ótica da teoria junguiana, fez um excelente estudo e deixou um grande legado para a Arte-terapia. Trabalhos dos internos foram apresentados por ela em congressos de psicopatologia na Europa e correspondeu-se com Jung. Em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente e, em 1981, escreveu o livro Imagens do Inconsciente (adaptado posteriormente como documentário pelo diretor Léo Hirszman).

Após as reformas que se seguiram ao movimento da anti-psiquiatria, no âmbito da criação do Serviço Único de Saúde (S.U.S.), temos o surgimento e implantação dos serviços dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) unidades independentes, porém, interligadas dentro de uma concepção de redes de atenção que substituem os manicômios dando toda assistência para inserir o indivíduo na sociedade, substituindo o conceito de doença para o de promoção de saúde e bem-estar, baseando-se em práticas voltadas para a inclusão dos doentes mentais.

Falando sobre a importância do CAPS, Tavares (2003), complementa que:

O CAPS, no contexto das políticas públicas em saúde mental, surge, não como um modelo assistencial, mas como um projeto que se lança para o futuro, não se cristalizando numa estrutura de saber/poder, mas se constituindo e construindo continuamente a partir das exigências cotidianas dos seus usuários. (TAVARES, 2003, p. 35).

É nos CAPS que encontraremos exemplos de implantação e aplicação de intervenções psicoterapêuticas com utilização da Arte-terapia. Nesse sentido, o uso da Arte-terapia proporciona e estimula o desenvolvimento de habilidades que podem elevar a autoestima do sujeito fazendo com que a pessoa tenha a possibilidade de se redescobrir a partir da manifestação de aspectos que estimulam o desenvolvimento da criatividade no remanejo de situações de conflito:

A Arte-terapia é um dispositivo terapêutico que absorve saberes das diversas áreas do conhecimento, constituindo-se como uma prática transdisciplinar, visando a resgatar o homem em sua integralidade através de processos de autoconhecimento e transformação (COQUEIRO, VIEIRA & FREITAS, 2010, p. 860)

Conforme definição da Associação Brasileira de Arte-terapia, citada por Reis (2014, p. 143), a Arte-terapia é “um modo de trabalhar utilizando a linguagem artística como base da comunicação cliente-profissional. Sua essência é a criação estética e a elaboração artística em prol da saúde”. Segundo Souza Martins (2012, p. 16), “a Arte-terapia é definida como um método de tratamento terapêutico para o desenvolvimento pessoal, que faz uso e integra diferentes mediadores artísticos”, isso de acordo com a Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT).

Em ambas as definições fica claro o foco da prática junto a profissionais da área da saúde, entretanto, Reis (2014) chama a atenção para o fato de que isso não caracteriza impedimento para que profissionais de outras áreas (educação, e artes), possam exercer a utilização da Arte-terapia, sendo que, para estas ocasiões, o processo seja destituído de seu caráter clínico.

Tanto a AATESP (2010), como Souza Martins (2012, p. 16), chamam a atenção para o fato de que, uma prática só pode se configurar como Arte-terapia, quando se encontram presentes os três elementos que caracterizam a relação terapêutica, sendo estes “o paciente, considerado o criador, o objeto de arte, que é a criação executada no setting e o arte-terapeuta, utilizando recursos como a imaginação, os símbolos e as metáforas”.

Conforme os parágrafos anteriormente apresentados, podemos concluir que a Arte-terapia tem, a partir de uma proposta de promoção da criação (Aristóteles), de transformação (Foucault), de invenção (Pareyson), e de manifestação (Freud e Jung), derivadas da arte, junto às leis que embasam o pensamento cientifico, um campo muito amplo para sua inserção no âmbito das intervenções que visam promover o bem-estar, a saúde mental e formas de acolhimento e evasão para os sofrimentos humanos.

Sendo múltiplas as possibilidades de inserção desta como método associado ao processo terapêutico, o trabalho se volta aqui para as aplicações desta nos âmbitos da clínica das psicoses, na assistência ao portador de sofrimento psíquico assistido em Centros de apoio (CAPS), e também nos contextos dos hospitais psiquiátricos ainda remanescentes. Passemos agora para um conjunto de relatos demonstrativos acerca de práticas de Arte-terapia vivenciadas em diferentes regiões do país.

3. METODOLOGIA

O presente trabalho é apresentado como um relato de experiência, estudo metodológico investigativo desenvolvido a partir de práticas de observação direta intensiva e participante, processo de produção de informação que, segundo Lakatos & Marconi (2003, p. 194), se caracteriza pela real participação do pesquisador na comunidade ou grupo, ou em suas palavras “fica tão próximo quanto um membro do grupo que está estudando e participa das atividades normais deste”. Ainda segundo os autores, citando Mann:

A observação participante é uma tentativa de colocar o observador e o observado do mesmo lado, tomando-se o observador um membro do grupo de molde a vivenciar o que eles vivenciam e trabalhar dentro do sistema de referência deles. (MANN In: MARCONI & LAKATOS, 2003, p. 194).

O material que compõe a apresentação deste trabalho, foi coletado a partir de um conjunto de experiências e vivencias ocorridas entre os anos de 2015 e 2017, junto a profissionais de diferentes áreas que atuam junto a sujeitos atendidos por serviços de acolhimento psicológico, psiquiátrico e usuários de serviços assistenciais. Como método de arquivamento para os produtos dessas vivencias, foi utilizado o Diário de Campo que, segundo Lima et al (2007), “consiste num Instrumento de Anotações, um caderno com espaço suficiente para anotações, comentários e reflexão, para uso individual do investigador no seu dia-a-dia”.

Com base nisso, o desenvolvimento do trabalho se dá sob forma progressiva e linear, um crescente que permeia diferentes etapas do processo desenvolvimentista da Arte-terapia, desde as discussões meramente filosóficas (primeiro momento), passando, pela cientificidade e desenvolvimento (segundo momento), para, por fim, desencadear em um relato de experiência composto por várias vivencias junto a práticas de Arte-terapia em diferentes locais e regiões do país. O intuito dessa organização se explica pela necessidade de apresentação teórica que demonstre a relevância temporal da utilização da arte como instrumento terapêutico através da história.

Levando em consideração o objeto de investigação e analise e destacando o caráter subjetivo atribuído a este, Minayo (2001), por sua vez, coloca que a pesquisa qualitativa consiste no meio mais adequado quando se analisam questões muito particulares, referentes a análise de subjetividades, destacando a relevância da pesquisa qualitativa, pela sua ampla oferta e possibilidade de aprofundamento:

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 2001, p. 22).

Por fim, quanto à metodologia, temos no método dialético uma compreensão de mundo voltada, segundo Engels apud Lakatos & Marconi (2003, p. 101), “para uma concepção deste como um conjunto de processos, metamórficos e mutáveis, sempre possíveis de devires”.

A partir disso, os objetivos deste trabalho podem ser definidos pela necessidade de demonstrar, através de exemplos práticos de ações envolvendo a sua utilização, de como a Arte-terapia em suas potencialidades pode, de uma forma lúdica e voltada para processos de incentivo à produção e a criatividade, possibilitar uma compreensão do ser humano que promova a saúde mental de forma a proporcionar, através de um método rico, criativo e de grande cunho interativo, um fazer que se caracterize pelo respeito as emanações potenciais do outro.

4. RELATO DE EXPERIENCIA: ENCONTROS E VIVÊNCIAS COM PRÁTICAS DE ARTE-TERAPIA.

Conforme já mencionado no parágrafo anterior, neste ponto, a proposta que se apresenta como discussão central do trabalho, converge em um conjunto de relatos acerca de experiências que se deram a partir de vários contatos entre a presente autora desta dissertação, com diversos profissionais que se utilizam da Arte-terapia, em suas várias formas, como instrumento de promoção do cuidado junto a sujeitos atendidos nos serviços de acolhimento ao sujeito com sofrimento mental.

Inicialmente, algumas considerações devem ser apresentadas acerca de um projeto denominado Cur-A-rte, desenvolvido por discentes do curso de psicologia da FTC e com a participação de outros indivíduos cujo objetivo está em promover, através das manifestações artísticas, práticas voltadas para uma forma alternativa de aproximação, vinculação e transformação. Utilizando de diversas formas de manifestações artísticas, como instrumentos de intervencão para promover a saúde mental, essas intervenções se davam a partir de cada demanda especifica.

A partir de uma constatação de que nenhuma ação similar se encontrava sendo realizada no município de Vitória da Conquista-Ba, com todas as dificuldades que esta lacuna pode impor para o desenvolvimento do projeto, emerge uma necessidade de busca pela correção e aprimoramento dos conhecimentos. Diante disso, surge a proposta de levar esse inconformismo e essa insatisfação rumo a um caminho de vivencias em um processo itinerante de contatos, trocas e aprendizagem com práticas executadas por profissionais de outros lugares.

É com base nesse movimento Foucaultiano, a busca pela constante transformação de si, que se passa para a etapa dos encontros potencializadores e criadores. Durante um período de dois anos e quatro meses, tendo sido visitados um total de doze lugares, em seis diferentes estados do Brasil, com encontros e participações em pequenas intervenções junto a profissionais e pessoas assistidas pelas propostas terapêuticas de cunho artístico e realizados em diferentes ambientes (hospitais, hospitais psiquiátricos, instituições de assistência, Caps entre outras).

Mês de maio, cidade do Rio de Janeiro, 2015, primeira visita ao hotel da loucura ala abandonada do instituto Nise da Silveira, projeto idealizado pelo médico Vitor Pordeus, tendo por suas inspirações, Nise da Silveira, Jung e Espinoza. Para as intervenções, utilizavam do teatro como instrumento terapêutico para tratar do sofrimento psíquico dos pacientes. Um espaço de arte e convivência, aonde se hospedavam estudantes, profissionais da área da saúde mental e outras, artistas e pesquisadores. Para se hospedar era necessário fazer uma intervenção com os pacientes.

A intervenção foi realizada pela manhã, às 10:30, tendo a participação de aproximadamente vinte e cinco pacientes. Foi aplicada neles uma intervenção denominada “revele a tua face”, segundo a qual, os pacientes falavam um pouco sobre eles. Depois teve a segunda parte, na qual, se utilizando de várias tintas de cores diferentes, expressávamos nosso sentimento no rosto do outro, utilizando este como uma tela. Com isso, criou-se uma espécie de sentido de tribo, movidos pelo poder que arte tem, e afetar o outro através da potência criativa, tendo um efeito vincular.

Mês de maio, cidade do Rio de Janeiro, 2015, Hospital psiquiátrico Pinel. No segundo dia, um grupo formado por alguns artistas (pacientes do Nise), cuidadores e educadores para uma intervenção realizada por eles no hospital psiquiátrico Pinel com os pacientes de lá. Saindo do hotel da loucura vestidos com fantasias e instrumentos, cantado canções de rodas populares, religiosas, folclóricas e ritualísticas, começando o processo desde de lá. De acordo o método do médico Vitor Pordeus, da mesma forma que as pessoas adoecem devidos as suas repressões, essa mesma sociedade era capaz de curar a si mesmo através do resgate cultural que por sua vez é artística.

Quanto mais se a pessoa se aproxima das manifestações artísticas e culturais, mais se obtém a cura, como uma espécie de homeopatia cultural. A chegado ao hospital Pinel se deu em Cortejo, com entoações de canções de união e amor que convidavam os pacientes da instituição para a celebração, participando do teatro ritual. Vários artistas internados, talentosos, criativos e falantes puderam ser observados. Foi uma experiência de aprendizado e satisfação.

Mês de Setembro, cidade do Rio de Janeiro, 2015, Instituto Nise da Silveira (Ocupa Nise). Terceira experiência no Hotel da loucura, dessa vez, em uma ocupação de sete dias, onde foram diversos profissionais, pacientes, estudantes e artistas fazendo da ala um espaço de interação educativa. As ações da semana envolveram muito teatro, músicas e rituais culturais, além de cursos de psicopatologia tratando da psicose como diferença e não doença.

Nesta oportunidade, ocorreram contatos com profissionais e estudantes de diversas parte do Brasil que trabalhavam casando a saúde mental, com a arte e desenvolvendo seus projetos, mas seguindo a mesma linha do médico Vitor Pordeus, da arte como potência, e do afeto como forma de promoção da saúde mental. Isso foi um marco da minha história como estudante de psicologia onde me encontrei encantada como o universo extenso que possibilidades que a arte proporciona.

Mês de abril, cidade do Rio de Janeiro, 2016. A Semana Shabes foi um evento criado pelo médico Vitor Pordeus, com o intuito em realizar uma semana de práticas e ensinamentos para a emersão do sentido de se sentir um artista mais humano. Seguido por métodos criados por ele, iniciávamos sempre cantando quatro canções de roda saudando os quatro elementos. De acordo Vitor Pordeus quanto mais nos aproximamos da nossa ancestralidade mais conseguimos nos auto-conhecer, é necessário conhecer nossa história e as músicas eram para resgatar essa essência perdida do homem em relação à natureza.

No teatro ele aplicava nos pacientes a inversão de papeis. Em uma situação que me chamou bastante atenção, pois nada era pôr acaso, havia uma conotação bastante simbólica, ele pediu que uma paciente esquizofrênica, outrora vista como “perigosa” no hospital por sua agressividade, para interpretar a deusa da destruição Hécate[2], uma referência à mitologia grega. Ele falava para ela soltar toda a sua fúria, pois se ela não manifestasse no teatro iria utilizar sua fúria na vida cotidiana. Aquele era um espaço para liberar toda a fúria concentrada. A paciente gritava, esperneava pelo chão, havia grande gozo em sua representação.

Logo depois a Deusa encontra com seu lado masculino através da alquimia, processo no qual se busca a transformação de metais inferiores em ouro. Um devir, tendo o poder de mudar e se reinventar e a Hécate se transformava na virgem Maria. A paciente, por sua vez, saia do seu papel de gozo pela experiência de esta interpretando a virgem Maria, uma mulher pura e de grande coração. Ela se acalmava e interpretava seu papel com grande vontade, mas sem o êxtase que demonstrava no papel anterior. Era uma excelente artista e, de perigosa, com o passar do tempo começou a ser ajudante do Vitor Pordeus.

Inspirada nas vivencias proporcionadas pelas experiências no Hotel da loucura, ocorre a ideia de transformar o Cur-A-rte em um projeto itinerante, se hospedando na casa de alguns profissionais e tendo a experiência de vivenciar na prática como alguns colegas promotores de saúde mental estão trabalhando na sua região.

Mês de janeiro, cidade de Aracajú, Sergipe, 2017. Aconteceu na casa de uma psicóloga, Larissa Leite, que estava desenvolvendo o seu mestrado na área de cinema, retratando sexualidade e gênero através de filmes. De acordo com Larissa, o cinema, por sua vez, é uma manifestação artística capaz de atingir diversos públicos, trazendo um retratamento da realidade, desenvolvendo sentimentos diversos, levando os sujeitos se atentarem ao cotidiano de forma ilustrativa e promovendo questionamentos. O cinema, de acordo ela, é uma arma potente terapêutica.

Mês de Janeiro, cidade de Olinda, Pernambuco, 2017. A hospedagem aconteceu na casa de um educador cultural e artista, Antônio Martins conhecido como Oris de Olinda, que trabalha com redução de danos através da cultura popular (coco, maracatu, cavalo marinho, forró e outras manifestações). Ele desenvolve esse trabalho no consultório de rua, assim como Vitor Pordeus, Antônio Martins, já com seus cinquenta e quatro anos acredita, que a cultura da mesma forma que adoece tem o poder de curar as doenças da alma.

Mês de Janeiro, cidade de João Pessoa, Paraíba, 2017. Hospedagem na casa de três irmãos médicos que desenvolviam seu trabalho na residência do programa saúde da família. Segundo eles, esta área é de grande dificuldade para se trabalhar com a arte pois, a medicina ainda é muito voltada para os tratamentos utilizando os fármacos como principal forma de tratamento. Fui convidada por um deles para realizar uma oficina no posto de saúde aonde trabalhavam.

Em um primeiro momento, propus fazer uma intervenção, através da técnica da palhaçaria, com os usuários do posto de saúde, de forma descontraída, buscando, com isso, minimizar o clima de espera dos atendimentos. Cantamos, dançamos, fizemos cantiga de rodas com os usuários. Em um segundo momento realizei uma oficina do cuidado com a equipe médica daquele posto de saúde, falando da importância da importância do cuidado com a saúde mental, e do cuidado com o outro. Em um terceiro momento fui com a equipe medica visitar uma cliente em sua casa em estado terminal. Cantamos karaokê juntamente com ela e buscando proporcionar um bem-estar através da expressão artística.

Mês de fevereiro, cidade de Fortaleza, Ceará, 2017. Hospedagem na casa de um cientista social, Alécio Fernandes, coordenador de um coletivo chamado “Na Tora”, utilizando a arte de diversas formas (música, dança, culinária, cinema, pintura), como resgate cultural em crianças das periferias localizadas próximo aos litorais. O coletivo ocupava uma praça localizada na rua dele para suas ações sociais realizadas. De acordo Alécio, a arte salva, ela resgata o indivíduo do universo do crime e do tráfico, trazendo para eles uma nova realidade, libertadora e não opressora.

Mês de Julho, cidade de Resende, Rio de Janeiro, 2017. Fiquei hospedada na casa de uma psicóloga, Nathali Corrêa coordenadora de saúde mental que desenvolvia seu trabalho no CAPS, utilizando do teatro assim como o Vitor Pordeus, como instrumento terapêutico promotor de saúde mental. Ela criou um grupo de teatro chamado dragão valente, que realiza ensaios duas vezes por semana. O método utilizado no teatro é a cena ação. Onde todos eram livres para manifestar suas expressões corporais através do teatro despertando a criatividade adormecida como forma de se curar e curar o outro através da coletividade teatral, ou inconsciente coletivo.

Mês de agosto, cidade de São Thomé das letras, Minas Gerais, 2017. Juntamente com a psicóloga Nathali, e duas de suas estagiarias, Lilan Leal e Larissa Cardoso; também estava Ângela Monteiro assistente social e Mariah Martins, estudante de psicologia do RJ e estagiaria do Instituto Nise da Silveira. ;marcamos de nos encontrar em São Thomé das letras para um momento de aprendizado, troca e celebração da arte. Fizemos uma intervenção na praça central da cidade de São Thomé, dançando cantigas, fazendo teatro, recitando poesias e falando com a comunidade nosso objetivo que era mostrar a potência que a arte tem em promover a saúde mental.

5. DISCUSSÃO

Com base no que foi exposto nos parágrafos anteriores, podemos concluir, acerca das experiências proporcionadas pelo conjunto de vivencias, que a arte, como elemento constituinte da cultura humana, tem amplo espaço para uma inserção voltada para a minimização dos aspectos do sofrimento humano. É nesse sentido que, para Ribeiro (2013), a Arte-terapia aparece, então, para utilizar a força da experiência criadora como forma de autoconhecimento e de transformação do ser humano:

(...) Em arteterapia, as experiências sensoriais e a linguagem corporal são duas formas de expressar o simbólico (...). Por meio da leitura dos produtos da expressividade do indivíduo, busca auxiliá-lo a encontrar o equilíbrio entre o fazer, o agir e o pensar. Desse modo, a criatividade ocupa posição central entre a arte e o processo terapêutico, pois o fazer criativo fornece a base para a leitura do que pode ser transformado. O fazer criativo vai além do cotidiano e do social; passa para o transpessoal, o universal e o espiritual.

O que a experiência artística proporciona é um fazer que mescla as representações de nossas emoções, desejos e fantasias, com uma forma única de estabelecimento do contato com a realidade, uma forma de comunicação e expressão que reúne elementos oriundos de nossas experiências e que toma forma a partir das particularidades da subjetividade de cada um. Para Barroco & Superti (2014, p. 23), “a arte está em permanente relação com a realidade objetiva”. Entretanto, as mesmas autoras colocam que esta relação, longe de se configurar em uma cópia, constitui uma produção nova, uma derivação que emerge como fruto da criatividade. Segundo o próprio Vygotsky:

A arte está para a vida como o vinho para a uva – disse um pensador, e estava coberto de razão, ao indicar assim que a arte recolhe da vida o seu material, mas produz acima desse material algo que ainda não está nas propriedades desse material. (VYGOTSKY, 1999, p. 308).

A arte, então, aparece como um possível, uma potência que vem ao encontro das possiblidades ocultas de um outro para juntos produzirem algo novo, uma forma particular de expressão e manifestação (PAREYSON, 1984). Entende-se que a produção desse novo, em detrimento da mera cópia ou reprodução sistematizada de velhas fórmulas, é um dos pressupostos fundamentais para que o processo arte terapêutico possa se desenvolver (VYGOTSKY, 1999).

Retomando os relatos de experiências anteriormente apresentados, o que se pode observar, a respeito das diferentes propostas vivenciadas, são as inserções da arte-terapia voltadas para um contexto do acolhimento bastante ligado a situações de vulnerabilidade social e de sofrimento psíquico oriundos de transtornos mentais. Apesar de sua plasticidade no que diz respeito a aplicações em diferentes áreas, a Arte-terapia encontra nos âmbitos dos CAPS, dos hospitais psiquiátricos, e das intervenções junto a grupos em situação de vulnerabilidade e exclusão, uma maior amplitude de manifestação.

Conforme Marx (2008, p. 239), o homem em sua condição de “zoon politikon”, “não é apenas um animal social, mas, também, um animal político”. Considerando a carga de influência dos aspectos sociais e culturais na formação e estruturação de vários problemas psíquicos que afligem o ser humano, podemos aqui, retomando o pensamento do médico Vitor Pordeus (2013), colocar o social como uma parte significativa de grande importância na construção do processo de recuperação, transformação e na ressignificação do sujeito. Barroco e Superti colocam que:

A arte é o social em nós, e se o seu efeito se processa em um indivíduo isolado, isto não significa de maneira nenhuma, que suas raízes e essência sejam individuais. ...o social existe até onde há apenas um homem e as suas emoções... (BARROCO & SUPERTI, 2014, p. 24).

A inserção da arte, neste sentido, tem uma conotação de confrontação, de inserção da cultura para a desconstrução daquilo que se encontra disfuncional por conta de aspectos oriundos da própria cultura. Para Pordeus (2013), por um lado, se a cultura, através das imposições, das exigências e conflitos, tem a capacidade de levar o ser humano ao desajuste, por outro lado, parte dela tem significativo valor representativo no que diz respeito às construções e desenvolvimento desse mesmo ser humano. Segundo Roos & Moutinho (2015):

As verdades não existem ao acaso, elas existem porque algum dia alguém as construiu. E se alguém as construiu é porque elas podem também ser desconstruídas. Esta escrita é parte de um processo de desconstrução do que até então entendíamos por arte. Mas quem foi que disse que arte é apenas representação? Arte pode ser isso. Mas arte pode ser aquilo, mais aquele outro e aquele outro...

Um bom encontro. Um bom encontro seguido de outros diversos. Um encontro que provocou desacomodações. Um encontro de afecções. Um outro olhar para a arte, para o corpo. Uma outra maneira de habitar uma vida. Um corpo potente. (ROOS & MOUTINHO In: MUNHOZ & COSTA, 2015, p. 9)

O resgate que vem a ser proposto pela inserção da arte-terapia no contexto de trabalho e atuação dos profissionais apresentados nos relatos, é um resgate não apenas do potencial criativo e funcional do ser humano, mas, de uma forma mais ampla, um resgate daquilo que permeia a nossa existência, o fruto de nosso convivo em sociedade e nossa marca diferencial em relação aos outros seres vivos deste mundo, a cultura em seus aspectos funcionais e potenciais:

Desse modo, a arte e os instrumentos culturais servem a humanização dos homens e ao desenvolvimento de sentidos novos como os amores, as paixões, a amizade. Portanto, somente com a construção dos objetos culturais e artísticos e que ficam afirmadas as características estritamente humanas, com necessidades além das naturais. (BARROCO & SUPERTI, 2014, p. 27).

Assim, o que a Arte-terapia vem para nos dizer, isso através das propostas alternativas que foram apresentadas, é que muito do adoecimento psíquico e espiritual que atualmente aflige ao ser humano, se encontra alicerçado em práticas cotidianas que induzem para uma vida de muita pouca criatividade ou de produção voltada para a autossatisfação e para a realização de si. Egocentrismo, exclusão, preconceitos, homogeneidade, padrões de comportamento, capitalismo narcisista, controle social, falência do senso de coletividade originário das sociedades primitivas, entre outros fatores que corroboram para a loucura existencial que aflige o homem pós-moderno (Pordeus, 2013).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS


[1] AATESP – Associação de Arte-terapia do Estado de São Paulo.

[2] Na mitologia grega, Hécate era a deusa das terras selvagens e dos partos. Era geralmente representada segurando duas tochas ou uma Ela era uma das principais deidades adoradas nos lares atenienses como deusa protetora e como a que conferia prosperidade e bênçãos diárias à família (Fonte: eventosmitologiagrega.blogspot.com).

RESUMO

Este trabalho foi constituído sob a forma de um relato de caso no qual, através da apresentação de várias práticas realizadas por psicólogos e outros profissionais em diferentes cidades e regiões do Brasil. As práticas foram observadas e vivenciadas em diversos encontros entre os anos de 2015 e 2017, constituindo em um conjunto representativo da diversidade de intervenções que se encontram sendo realizadas através da Arte-terapia. Os grupos observados são formados por usuários de centros de acolhimento e assistência social, hospitais e instituições psiquiátricas entre outros. A partir disso, este trabalho tem como objetivos realizar uma apresentação da multiplicidade de formas de se intervir em Arte-terapia, demonstrando a potencialidade que esta intervenção pode proporcionar no cuidado ao sofrimento mental.

Palavras-chave: Arte-terapia; encontros; potência criadora; acolhimento.

ABSTRACT

This work was constituted in the form of a case report in which, through the presentation of several practices performed by psychologists and other professionals in different cities and regions of Brazil. The practices were observed and experienced in several meetings between the years 2015 and 2017, constituting a representative set of the diversity of interventions that are being performed through Arte-therapy. The observed groups are formed by users of care centers and social care, hospitals and psychiatric institutions among others. From this, this work aims to present a multiplicity of ways to intervene in Art-therapy, demonstrating the potentiality of this intervention in the care of mental suffering.

Keywords: Art therapy; meetings; creative power; reception.

Por vezes à noite há um rosto / Que nos olha do fundo de um espelho / E a arte deve ser como esse espelho / Que nos mostra o nosso próprio rosto”.

Jorge Borges, in “This Craft of Verse” (1992)

1. INTRODUÇÃO

Tema de discussões de filósofos e cientistas dos tempos remotos até os dias atuais, a arte tem, ao longo de toda a existência do ser humano, exercido fundamental papel na expressão da cultura, das representações sociais e dos aspectos subjetivos que afetam os existencialismos individuais. Através da arte o homem expressa emoções, sentimentos e conteúdos afetivos que demonstram, por um lado, o seu potencial criativo para a conversão do abstrato no concreto (PEDROSA & TAVARES, 2009).

Por outro, demonstra a variedade de manifestações das linguagens humanas e seus processos de comunicação. Em relação a esse aspecto, temos no corpo humano uma potencial fonte de manifestações para que aspectos e informações de cunho psicológico possam emergir (VASQUES, 2009). A potencialidade de utilização da linguagem corporal já é conhecida pela psicologia em seus primórdios desde os seus aspectos catárticos na manifestação dos sintomas, em sua utilização como linguagem inconsciente, ou mesmo como forma de criação e escoamento das tensões.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, já atribuía grande importância para arte ao colocar que “a psicanálise está em uma posição de aprendiz em relação à arte” (AUTUORI & RINALDI, 2014, p. 311). Considerando a importância do papel da arte dentro da história da humanidade, e o seu valor como instrumento terapêutico, de entretenimento e lúdico (COQUEIRO, VIEIRA & FREITAS, 2010), este trabalho, desenvolvido a partir de um conjunto de encontros e vivencias em diferentes localidades pelo Brasil, volta-se, então, para uma compreensão metodológica que visa investigar qual o papel do exercício das manifestações artísticas dentro de um contexto terapêutico.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A Arte segundo a filosofia: diálogos com Aristóteles, Foucault e Pareyson.

Segundo Vares (2011), Aristóteles, filósofo grego da antiguidade, já se referia à arte como um saber científico. Como tal, a arte se encontra dotada de dois aspectos inerentes às ciências: a epistéme (filosofia) e a práxis ou poíesis (ação). No âmbito da relevância, objetivos e funções, as ciências eram divididas em três grupos sendo, a arte, enquadrada na categoria das ciências produtivas. Como tal, a arte simbolizava a ação fabricadora, lidando com o particular e o possível. Seu único objetivo é vencer o acaso e a sua finalidade está fora de si mesma, em um objeto externo.

Aristóteles adotou a linha oposta à de Platão e em sua doutrina de catarse afirmou que as artes proporcionam uma vazão para emoções represadas, que não têm plena vazão natural nas condições de vida social. Mas conquanto as conclusões fossem contrárias, o critério era idêntico. Avaliavam-se as artes em função dos seus efeitos de aprimoramento ou aviltamento do caráter do indivíduo como unidade social e dos seus supostos efeitos sobre o próprio organismo social. (OSBORNE, 1974, p. 125).

Apesar da noção de catarse de Aristóteles antecipar Freud em séculos, sua visão da arte, entretanto, é uma visão voltada para os aspectos científicos, práticos e objetivos. Para Aristóteles, a arte, assim como as outras ciências, é dotada de regras que possibilitam a sua execução (VARES, 2011). O simples fazer ou executar uma ação apenas representa uma técnica, uma norma estabelecida a proporcionar o desenvolvimento da ação produtiva. Por isso, para Aristóteles, a arte em si não representa uma ação de criação libertadora.

Divergindo desta visão, o filósofo e historiador francês Michel Foucault, traz a arte para um patamar muito mais voltado para o campo da reflexão filosófica e para o existencialismo. Segundo Fischer (2015, p. 248), para Foucault, a manifestação artística, através de seus “constantes movimentos de inconformismo com o pensamento (e a vida) estável”, possibilita ao ser humano a transformação e a criação de si. Essa criação transformadora de si proporciona que o artista se torne criador de sua própria história, imprimindo sua marca existencial em uma negação da posição de mero consumidor de criações alheias.

Para Foucault, a criação reflete essa libertação – a qual não foi atribuída por Aristóteles - de uma forma de existencialismo que prima por se encontrar, por se revelar como coisa manifesta no universo, e por movimentar o sentido metamórfico que caracteriza a “arte da existência”. A arte criacionista possibilita um movimento dualista que vai muito além da simples transformação de si e da negação da reprodução:

Por ora, contento-me em sugerir que Foucault era e estava, (...) ocupado com a verdade e com a criação, o que não se separa da ideia de um exercício de força sobre si mesmo, de um trabalho intelectual, ético e estético, que nos coloca numa posição quase de Sísifos, aceitando começar sempre e outra vez nossa jornada, no sentido de um desprendimento de nós mesmos, de uma modificação lenta e árdua em relação àquilo que somos e pensamos. (FISCHER, 2015, p. 947).

No exercício da criação e da transformação, o artista passa por uma reconstrução, “aparece e desaparece; cria a si mesmo e deixa de ser” (FISCHER, 2015, p. 946). Segundo o próprio Foucault citado por Fischer (2015, p. 946): “(...) essa transformação de si por seu próprio saber é, penso, algo bastante próximo da experiência estética. Por que um pintor trabalharia, se ele não é transformado por sua pintura? ”.

A arte em Foucault se encontra compreendida em um nível que ultrapassa a simples e reducionista noção de conceitos, de uma forma muito mais ampla, se pode compreender que o que realmente importa na manifestação é o seu papel na busca do sujeito por uma verdade que não esteja ligada umbilicalmente àquelas verdades reproduzidas e ensinadas mecanicamente pelos disciplinadores de corpos (KIRCHOF, 2004).

“Foucault escrevia para se transformar, e não para pensar a mesma coisa que o tinha ocupado anteriormente” (FISCHER, 2015, p. 958). Além disso, a arte para Foucault, tem a capacidade de manifestar e representar aquilo que Nietzsche denominou de “experiência trágica”, a representação das estruturas da loucura através de uma experiência não-racional (KIRCHOF, 2004). Arte e loucura se aproximam em um sentido de revelação no qual a primeira possibilita que a segunda possa se manifestar em toda a vivificação de seus movimentos de criação e destruição de si.

Para o filósofo italiano Luigi Pareyson, citado por Reis (2014, p. 149), a atividade artística “é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer”. Para ele, a arte não é concebida em ideais existentes, mas algo que inova, que incrementa a realidade. Enquanto Aristóteles traz a arte no âmbito das ciências, regida por leis, e Foucault, a coloca como uma experiência estética, existencial e de cunho libertário, para Pareyson, a arte é provida de ambas as concepções: as leis Aristotélicas e a liberdade Foucaultiana:

De uma parte, a atividade artística é invenção, criação, originalidade, isto é, liberdade, novidade, imprevisibilidade: não só não há uma lei que presida à atividade do artista e à qual ele deva conformar-se, mas, antes, a arte é tal justamente pela ausência de uma lei do gênero. De outra parte, a atividade artística implica um rigor, uma legalidade, digamos mesmo, uma necessidade férrea e inviolável: deve, portanto, haver uma lei que, peremptória e iniludível, presida ao êxito e à qual o artista não possa subtrair-se impunemente. (PAREYSON, 1984).

A beleza da arte não se encontra nos padrões e nos ideais, para Pareyson (1984), a beleza apenas consiste em mais uma tentativa de imposição de leis gerais sobre a arte. Nos diz Pareyson (1984): “ a beleza não é lei, mas resultado da arte: não seu objeto ou fim, mas seu efeito e êxito”. Para Suassuna (2008), a arte em Aristóteles assume uma noção de beleza que é objetiva, realista e está no objeto contemplado, não existe ideal, apenas aquilo que, diferindo do caos, detém a grandeza e a harmonia, agradando ao outro.

Nisso se encontra a beleza na arte, em sua capacidade de abarcar formas diversas e harmonizá-las, convertendo-as no belo e no sublime. E é essa noção, a de sublime, que será utilizada como referência da arte no âmbito da psicanálise Freudiana, se encontrando, a arte, ligada ao conceito de sublimação. É através dela que o aparelho psíquico mobiliza essas forças e as organiza proporcionando o surgimento da manifestação. De acordo com Sigmund Freud

Chamamos capacidade de sublimação à capacidade de trocar o alvo que está na origem sexual por outro que já não é sexual, mas é psiquicamente aparentado com o primeiro. (...) A sublimação é um processo que concerne à libido de objeto e consiste em que a pulsão se dirige para outro alvo, afastando da satisfação sexual. (FREUD, 2006, p. 2126).

A arte é o gozo que não pode ocorrer de uma outra forma, ou seja, é um substituto para a satisfação total não alcançada, segundo Autuori & Rinaldi (2014, p. 311), “é através dela que o aparelho psíquico mobiliza essas forças e as organiza proporcionando o surgimento da manifestação”. Com isso, “Freud denuncia que o artista fornece, através de suas criações, as mesmas descobertas que a psicanálise propõe, porém, antecipadamente”.

2.2 Diálogos da arte com a psicologia: a Arte-terapia, um breve histórico.

No início do século XX, Freud, de acordo com Autuori & Rinaldi (2014), se interessou pela arte e postulou que, o inconsciente, se manifesta através de imagens que transmitem significados mais diretamente do que as palavras. Jáno ano de 1913, ele observou que o artista pode simbolizar concretamente o inconsciente na produção artística, retratando conteúdo do psiquismo que, para ele, é uma forma de catarse:

A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio caminho entre uma realidade que frustra os desejos e o mundo de desejos realizados da imaginação – uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acham em pleno vigor. (FREUD apud AUTUORI & RINALDI, 2014, p. 307).

Um fragmento de uma citação de Freud ilustra a importância da arte no rol das capacidades criativas humanas. Segundo esta, Freud afirma haver “...muitas formas e meios de praticar a psicoterapia e todos os que levam à cura são bons.... Eu, dizia ele, não rejeito nenhum destes métodos e faria uso deles se uma ocasião favorável se apresentasse” (AATESP[1], 2010, p. 79).

Segundo Reis (2014), foi Jung o primeiro a utilizar a expressão artística em consultório. Para ele, a simbolização do inconsciente individual e do coletivo ocorre na arte. Na década de 20, recorreu à linguagem expressiva como forma de tratamento e, para tanto, pedia aos clientes que fizessem desenhos livres, imagens de sentimentos, de sonhos, de situações conflituosas ou outras. Para Jung citado em Reis (2014, p. 151), “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato”.

Mas não foram apenas Freud e Jung que contribuíram para a fundamentação da Arte-terapia, de acordo com a AATESP (2010), dois grandes psiquiatras brasileiros também o fizeram: Osório César e Nise da Silveira. Osório César, em 1923, trabalhou com arte no hospital do Jugueri (Franco da Rocha – SP), sob a influência da psicanálise freudiana publicou “A arte primitiva nos alienados”. Em 1927 publica “Contribuição para o estudo do simbolismo místico nos alienados”, “Sobre dois casos de estereotipia gráfica com simbolismo sexual”. “A expressão artística nos alienados” é publicada em 1929.

Em 1946, Nise da Silveira, que trabalhava no Centro Psiquiátrico D. Pedro II, procurando compreender as imagens produzidas pelos pacientes sob a ótica da teoria junguiana, fez um excelente estudo e deixou um grande legado para a Arte-terapia. Trabalhos dos internos foram apresentados por ela em congressos de psicopatologia na Europa e correspondeu-se com Jung. Em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente e, em 1981, escreveu o livro Imagens do Inconsciente (adaptado posteriormente como documentário pelo diretor Léo Hirszman).

Após as reformas que se seguiram ao movimento da anti-psiquiatria, no âmbito da criação do Serviço Único de Saúde (S.U.S.), temos o surgimento e implantação dos serviços dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) unidades independentes, porém, interligadas dentro de uma concepção de redes de atenção que substituem os manicômios dando toda assistência para inserir o indivíduo na sociedade, substituindo o conceito de doença para o de promoção de saúde e bem-estar, baseando-se em práticas voltadas para a inclusão dos doentes mentais.

Falando sobre a importância do CAPS, Tavares (2003), complementa que:

O CAPS, no contexto das políticas públicas em saúde mental, surge, não como um modelo assistencial, mas como um projeto que se lança para o futuro, não se cristalizando numa estrutura de saber/poder, mas se constituindo e construindo continuamente a partir das exigências cotidianas dos seus usuários. (TAVARES, 2003, p. 35).

É nos CAPS que encontraremos exemplos de implantação e aplicação de intervenções psicoterapêuticas com utilização da Arte-terapia. Nesse sentido, o uso da Arte-terapia proporciona e estimula o desenvolvimento de habilidades que podem elevar a autoestima do sujeito fazendo com que a pessoa tenha a possibilidade de se redescobrir a partir da manifestação de aspectos que estimulam o desenvolvimento da criatividade no remanejo de situações de conflito:

A Arte-terapia é um dispositivo terapêutico que absorve saberes das diversas áreas do conhecimento, constituindo-se como uma prática transdisciplinar, visando a resgatar o homem em sua integralidade através de processos de autoconhecimento e transformação (COQUEIRO, VIEIRA & FREITAS, 2010, p. 860)

Conforme definição da Associação Brasileira de Arte-terapia, citada por Reis (2014, p. 143), a Arte-terapia é “um modo de trabalhar utilizando a linguagem artística como base da comunicação cliente-profissional. Sua essência é a criação estética e a elaboração artística em prol da saúde”. Segundo Souza Martins (2012, p. 16), “a Arte-terapia é definida como um método de tratamento terapêutico para o desenvolvimento pessoal, que faz uso e integra diferentes mediadores artísticos”, isso de acordo com a Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT).

Em ambas as definições fica claro o foco da prática junto a profissionais da área da saúde, entretanto, Reis (2014) chama a atenção para o fato de que isso não caracteriza impedimento para que profissionais de outras áreas (educação, e artes), possam exercer a utilização da Arte-terapia, sendo que, para estas ocasiões, o processo seja destituído de seu caráter clínico.

Tanto a AATESP (2010), como Souza Martins (2012, p. 16), chamam a atenção para o fato de que, uma prática só pode se configurar como Arte-terapia, quando se encontram presentes os três elementos que caracterizam a relação terapêutica, sendo estes “o paciente, considerado o criador, o objeto de arte, que é a criação executada no setting e o arte-terapeuta, utilizando recursos como a imaginação, os símbolos e as metáforas”.

Conforme os parágrafos anteriormente apresentados, podemos concluir que a Arte-terapia tem, a partir de uma proposta de promoção da criação (Aristóteles), de transformação (Foucault), de invenção (Pareyson), e de manifestação (Freud e Jung), derivadas da arte, junto às leis que embasam o pensamento cientifico, um campo muito amplo para sua inserção no âmbito das intervenções que visam promover o bem-estar, a saúde mental e formas de acolhimento e evasão para os sofrimentos humanos.

Sendo múltiplas as possibilidades de inserção desta como método associado ao processo terapêutico, o trabalho se volta aqui para as aplicações desta nos âmbitos da clínica das psicoses, na assistência ao portador de sofrimento psíquico assistido em Centros de apoio (CAPS), e também nos contextos dos hospitais psiquiátricos ainda remanescentes. Passemos agora para um conjunto de relatos demonstrativos acerca de práticas de Arte-terapia vivenciadas em diferentes regiões do país.

3. METODOLOGIA

O presente trabalho é apresentado como um relato de experiência, estudo metodológico investigativo desenvolvido a partir de práticas de observação direta intensiva e participante, processo de produção de informação que, segundo Lakatos & Marconi (2003, p. 194), se caracteriza pela real participação do pesquisador na comunidade ou grupo, ou em suas palavras “fica tão próximo quanto um membro do grupo que está estudando e participa das atividades normais deste”. Ainda segundo os autores, citando Mann:

A observação participante é uma tentativa de colocar o observador e o observado do mesmo lado, tomando-se o observador um membro do grupo de molde a vivenciar o que eles vivenciam e trabalhar dentro do sistema de referência deles. (MANN In: MARCONI & LAKATOS, 2003, p. 194).

O material que compõe a apresentação deste trabalho, foi coletado a partir de um conjunto de experiências e vivencias ocorridas entre os anos de 2015 e 2017, junto a profissionais de diferentes áreas que atuam junto a sujeitos atendidos por serviços de acolhimento psicológico, psiquiátrico e usuários de serviços assistenciais. Como método de arquivamento para os produtos dessas vivencias, foi utilizado o Diário de Campo que, segundo Lima et al (2007), “consiste num Instrumento de Anotações, um caderno com espaço suficiente para anotações, comentários e reflexão, para uso individual do investigador no seu dia-a-dia”.

Com base nisso, o desenvolvimento do trabalho se dá sob forma progressiva e linear, um crescente que permeia diferentes etapas do processo desenvolvimentista da Arte-terapia, desde as discussões meramente filosóficas (primeiro momento), passando, pela cientificidade e desenvolvimento (segundo momento), para, por fim, desencadear em um relato de experiência composto por várias vivencias junto a práticas de Arte-terapia em diferentes locais e regiões do país. O intuito dessa organização se explica pela necessidade de apresentação teórica que demonstre a relevância temporal da utilização da arte como instrumento terapêutico através da história.

Levando em consideração o objeto de investigação e analise e destacando o caráter subjetivo atribuído a este, Minayo (2001), por sua vez, coloca que a pesquisa qualitativa consiste no meio mais adequado quando se analisam questões muito particulares, referentes a análise de subjetividades, destacando a relevância da pesquisa qualitativa, pela sua ampla oferta e possibilidade de aprofundamento:

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 2001, p. 22).

Por fim, quanto à metodologia, temos no método dialético uma compreensão de mundo voltada, segundo Engels apud Lakatos & Marconi (2003, p. 101), “para uma concepção deste como um conjunto de processos, metamórficos e mutáveis, sempre possíveis de devires”.

A partir disso, os objetivos deste trabalho podem ser definidos pela necessidade de demonstrar, através de exemplos práticos de ações envolvendo a sua utilização, de como a Arte-terapia em suas potencialidades pode, de uma forma lúdica e voltada para processos de incentivo à produção e a criatividade, possibilitar uma compreensão do ser humano que promova a saúde mental de forma a proporcionar, através de um método rico, criativo e de grande cunho interativo, um fazer que se caracterize pelo respeito as emanações potenciais do outro.

4. RELATO DE EXPERIENCIA: ENCONTROS E VIVÊNCIAS COM PRÁTICAS DE ARTE-TERAPIA.

Conforme já mencionado no parágrafo anterior, neste ponto, a proposta que se apresenta como discussão central do trabalho, converge em um conjunto de relatos acerca de experiências que se deram a partir de vários contatos entre a presente autora desta dissertação, com diversos profissionais que se utilizam da Arte-terapia, em suas várias formas, como instrumento de promoção do cuidado junto a sujeitos atendidos nos serviços de acolhimento ao sujeito com sofrimento mental.

Inicialmente, algumas considerações devem ser apresentadas acerca de um projeto denominado Cur-A-rte, desenvolvido por discentes do curso de psicologia da FTC e com a participação de outros indivíduos cujo objetivo está em promover, através das manifestações artísticas, práticas voltadas para uma forma alternativa de aproximação, vinculação e transformação. Utilizando de diversas formas de manifestações artísticas, como instrumentos de intervencão para promover a saúde mental, essas intervenções se davam a partir de cada demanda especifica.

A partir de uma constatação de que nenhuma ação similar se encontrava sendo realizada no município de Vitória da Conquista-Ba, com todas as dificuldades que esta lacuna pode impor para o desenvolvimento do projeto, emerge uma necessidade de busca pela correção e aprimoramento dos conhecimentos. Diante disso, surge a proposta de levar esse inconformismo e essa insatisfação rumo a um caminho de vivencias em um processo itinerante de contatos, trocas e aprendizagem com práticas executadas por profissionais de outros lugares.

É com base nesse movimento Foucaultiano, a busca pela constante transformação de si, que se passa para a etapa dos encontros potencializadores e criadores. Durante um período de dois anos e quatro meses, tendo sido visitados um total de doze lugares, em seis diferentes estados do Brasil, com encontros e participações em pequenas intervenções junto a profissionais e pessoas assistidas pelas propostas terapêuticas de cunho artístico e realizados em diferentes ambientes (hospitais, hospitais psiquiátricos, instituições de assistência, Caps entre outras).

Mês de maio, cidade do Rio de Janeiro, 2015, primeira visita ao hotel da loucura ala abandonada do instituto Nise da Silveira, projeto idealizado pelo médico Vitor Pordeus, tendo por suas inspirações, Nise da Silveira, Jung e Espinoza. Para as intervenções, utilizavam do teatro como instrumento terapêutico para tratar do sofrimento psíquico dos pacientes. Um espaço de arte e convivência, aonde se hospedavam estudantes, profissionais da área da saúde mental e outras, artistas e pesquisadores. Para se hospedar era necessário fazer uma intervenção com os pacientes.

A intervenção foi realizada pela manhã, às 10:30, tendo a participação de aproximadamente vinte e cinco pacientes. Foi aplicada neles uma intervenção denominada “revele a tua face”, segundo a qual, os pacientes falavam um pouco sobre eles. Depois teve a segunda parte, na qual, se utilizando de várias tintas de cores diferentes, expressávamos nosso sentimento no rosto do outro, utilizando este como uma tela. Com isso, criou-se uma espécie de sentido de tribo, movidos pelo poder que arte tem, e afetar o outro através da potência criativa, tendo um efeito vincular.

Mês de maio, cidade do Rio de Janeiro, 2015, Hospital psiquiátrico Pinel. No segundo dia, um grupo formado por alguns artistas (pacientes do Nise), cuidadores e educadores para uma intervenção realizada por eles no hospital psiquiátrico Pinel com os pacientes de lá. Saindo do hotel da loucura vestidos com fantasias e instrumentos, cantado canções de rodas populares, religiosas, folclóricas e ritualísticas, começando o processo desde de lá. De acordo o método do médico Vitor Pordeus, da mesma forma que as pessoas adoecem devidos as suas repressões, essa mesma sociedade era capaz de curar a si mesmo através do resgate cultural que por sua vez é artística.

Quanto mais se a pessoa se aproxima das manifestações artísticas e culturais, mais se obtém a cura, como uma espécie de homeopatia cultural. A chegado ao hospital Pinel se deu em Cortejo, com entoações de canções de união e amor que convidavam os pacientes da instituição para a celebração, participando do teatro ritual. Vários artistas internados, talentosos, criativos e falantes puderam ser observados. Foi uma experiência de aprendizado e satisfação.

Mês de Setembro, cidade do Rio de Janeiro, 2015, Instituto Nise da Silveira (Ocupa Nise). Terceira experiência no Hotel da loucura, dessa vez, em uma ocupação de sete dias, onde foram diversos profissionais, pacientes, estudantes e artistas fazendo da ala um espaço de interação educativa. As ações da semana envolveram muito teatro, músicas e rituais culturais, além de cursos de psicopatologia tratando da psicose como diferença e não doença.

Nesta oportunidade, ocorreram contatos com profissionais e estudantes de diversas parte do Brasil que trabalhavam casando a saúde mental, com a arte e desenvolvendo seus projetos, mas seguindo a mesma linha do médico Vitor Pordeus, da arte como potência, e do afeto como forma de promoção da saúde mental. Isso foi um marco da minha história como estudante de psicologia onde me encontrei encantada como o universo extenso que possibilidades que a arte proporciona.

Mês de abril, cidade do Rio de Janeiro, 2016. A Semana Shabes foi um evento criado pelo médico Vitor Pordeus, com o intuito em realizar uma semana de práticas e ensinamentos para a emersão do sentido de se sentir um artista mais humano. Seguido por métodos criados por ele, iniciávamos sempre cantando quatro canções de roda saudando os quatro elementos. De acordo Vitor Pordeus quanto mais nos aproximamos da nossa ancestralidade mais conseguimos nos auto-conhecer, é necessário conhecer nossa história e as músicas eram para resgatar essa essência perdida do homem em relação à natureza.

No teatro ele aplicava nos pacientes a inversão de papeis. Em uma situação que me chamou bastante atenção, pois nada era pôr acaso, havia uma conotação bastante simbólica, ele pediu que uma paciente esquizofrênica, outrora vista como “perigosa” no hospital por sua agressividade, para interpretar a deusa da destruição Hécate[2], uma referência à mitologia grega. Ele falava para ela soltar toda a sua fúria, pois se ela não manifestasse no teatro iria utilizar sua fúria na vida cotidiana. Aquele era um espaço para liberar toda a fúria concentrada. A paciente gritava, esperneava pelo chão, havia grande gozo em sua representação.

Logo depois a Deusa encontra com seu lado masculino através da alquimia, processo no qual se busca a transformação de metais inferiores em ouro. Um devir, tendo o poder de mudar e se reinventar e a Hécate se transformava na virgem Maria. A paciente, por sua vez, saia do seu papel de gozo pela experiência de esta interpretando a virgem Maria, uma mulher pura e de grande coração. Ela se acalmava e interpretava seu papel com grande vontade, mas sem o êxtase que demonstrava no papel anterior. Era uma excelente artista e, de perigosa, com o passar do tempo começou a ser ajudante do Vitor Pordeus.

Inspirada nas vivencias proporcionadas pelas experiências no Hotel da loucura, ocorre a ideia de transformar o Cur-A-rte em um projeto itinerante, se hospedando na casa de alguns profissionais e tendo a experiência de vivenciar na prática como alguns colegas promotores de saúde mental estão trabalhando na sua região.

Mês de janeiro, cidade de Aracajú, Sergipe, 2017. Aconteceu na casa de uma psicóloga, Larissa Leite, que estava desenvolvendo o seu mestrado na área de cinema, retratando sexualidade e gênero através de filmes. De acordo com Larissa, o cinema, por sua vez, é uma manifestação artística capaz de atingir diversos públicos, trazendo um retratamento da realidade, desenvolvendo sentimentos diversos, levando os sujeitos se atentarem ao cotidiano de forma ilustrativa e promovendo questionamentos. O cinema, de acordo ela, é uma arma potente terapêutica.

Mês de Janeiro, cidade de Olinda, Pernambuco, 2017. A hospedagem aconteceu na casa de um educador cultural e artista, Antônio Martins conhecido como Oris de Olinda, que trabalha com redução de danos através da cultura popular (coco, maracatu, cavalo marinho, forró e outras manifestações). Ele desenvolve esse trabalho no consultório de rua, assim como Vitor Pordeus, Antônio Martins, já com seus cinquenta e quatro anos acredita, que a cultura da mesma forma que adoece tem o poder de curar as doenças da alma.

Mês de Janeiro, cidade de João Pessoa, Paraíba, 2017. Hospedagem na casa de três irmãos médicos que desenvolviam seu trabalho na residência do programa saúde da família. Segundo eles, esta área é de grande dificuldade para se trabalhar com a arte pois, a medicina ainda é muito voltada para os tratamentos utilizando os fármacos como principal forma de tratamento. Fui convidada por um deles para realizar uma oficina no posto de saúde aonde trabalhavam.

Em um primeiro momento, propus fazer uma intervenção, através da técnica da palhaçaria, com os usuários do posto de saúde, de forma descontraída, buscando, com isso, minimizar o clima de espera dos atendimentos. Cantamos, dançamos, fizemos cantiga de rodas com os usuários. Em um segundo momento realizei uma oficina do cuidado com a equipe médica daquele posto de saúde, falando da importância da importância do cuidado com a saúde mental, e do cuidado com o outro. Em um terceiro momento fui com a equipe medica visitar uma cliente em sua casa em estado terminal. Cantamos karaokê juntamente com ela e buscando proporcionar um bem-estar através da expressão artística.

Mês de fevereiro, cidade de Fortaleza, Ceará, 2017. Hospedagem na casa de um cientista social, Alécio Fernandes, coordenador de um coletivo chamado “Na Tora”, utilizando a arte de diversas formas (música, dança, culinária, cinema, pintura), como resgate cultural em crianças das periferias localizadas próximo aos litorais. O coletivo ocupava uma praça localizada na rua dele para suas ações sociais realizadas. De acordo Alécio, a arte salva, ela resgata o indivíduo do universo do crime e do tráfico, trazendo para eles uma nova realidade, libertadora e não opressora.

Mês de Julho, cidade de Resende, Rio de Janeiro, 2017. Fiquei hospedada na casa de uma psicóloga, Nathali Corrêa coordenadora de saúde mental que desenvolvia seu trabalho no CAPS, utilizando do teatro assim como o Vitor Pordeus, como instrumento terapêutico promotor de saúde mental. Ela criou um grupo de teatro chamado dragão valente, que realiza ensaios duas vezes por semana. O método utilizado no teatro é a cena ação. Onde todos eram livres para manifestar suas expressões corporais através do teatro despertando a criatividade adormecida como forma de se curar e curar o outro através da coletividade teatral, ou inconsciente coletivo.

Mês de agosto, cidade de São Thomé das letras, Minas Gerais, 2017. Juntamente com a psicóloga Nathali, e duas de suas estagiarias, Lilan Leal e Larissa Cardoso; também estava Ângela Monteiro assistente social e Mariah Martins, estudante de psicologia do RJ e estagiaria do Instituto Nise da Silveira. ;marcamos de nos encontrar em São Thomé das letras para um momento de aprendizado, troca e celebração da arte. Fizemos uma intervenção na praça central da cidade de São Thomé, dançando cantigas, fazendo teatro, recitando poesias e falando com a comunidade nosso objetivo que era mostrar a potência que a arte tem em promover a saúde mental.

5. DISCUSSÃO

Com base no que foi exposto nos parágrafos anteriores, podemos concluir, acerca das experiências proporcionadas pelo conjunto de vivencias, que a arte, como elemento constituinte da cultura humana, tem amplo espaço para uma inserção voltada para a minimização dos aspectos do sofrimento humano. É nesse sentido que, para Ribeiro (2013), a Arte-terapia aparece, então, para utilizar a força da experiência criadora como forma de autoconhecimento e de transformação do ser humano:

(...) Em arteterapia, as experiências sensoriais e a linguagem corporal são duas formas de expressar o simbólico (...). Por meio da leitura dos produtos da expressividade do indivíduo, busca auxiliá-lo a encontrar o equilíbrio entre o fazer, o agir e o pensar. Desse modo, a criatividade ocupa posição central entre a arte e o processo terapêutico, pois o fazer criativo fornece a base para a leitura do que pode ser transformado. O fazer criativo vai além do cotidiano e do social; passa para o transpessoal, o universal e o espiritual.

O que a experiência artística proporciona é um fazer que mescla as representações de nossas emoções, desejos e fantasias, com uma forma única de estabelecimento do contato com a realidade, uma forma de comunicação e expressão que reúne elementos oriundos de nossas experiências e que toma forma a partir das particularidades da subjetividade de cada um. Para Barroco & Superti (2014, p. 23), “a arte está em permanente relação com a realidade objetiva”. Entretanto, as mesmas autoras colocam que esta relação, longe de se configurar em uma cópia, constitui uma produção nova, uma derivação que emerge como fruto da criatividade. Segundo o próprio Vygotsky:

A arte está para a vida como o vinho para a uva – disse um pensador, e estava coberto de razão, ao indicar assim que a arte recolhe da vida o seu material, mas produz acima desse material algo que ainda não está nas propriedades desse material. (VYGOTSKY, 1999, p. 308).

A arte, então, aparece como um possível, uma potência que vem ao encontro das possiblidades ocultas de um outro para juntos produzirem algo novo, uma forma particular de expressão e manifestação (PAREYSON, 1984). Entende-se que a produção desse novo, em detrimento da mera cópia ou reprodução sistematizada de velhas fórmulas, é um dos pressupostos fundamentais para que o processo arte terapêutico possa se desenvolver (VYGOTSKY, 1999).

Retomando os relatos de experiências anteriormente apresentados, o que se pode observar, a respeito das diferentes propostas vivenciadas, são as inserções da arte-terapia voltadas para um contexto do acolhimento bastante ligado a situações de vulnerabilidade social e de sofrimento psíquico oriundos de transtornos mentais. Apesar de sua plasticidade no que diz respeito a aplicações em diferentes áreas, a Arte-terapia encontra nos âmbitos dos CAPS, dos hospitais psiquiátricos, e das intervenções junto a grupos em situação de vulnerabilidade e exclusão, uma maior amplitude de manifestação.

Conforme Marx (2008, p. 239), o homem em sua condição de “zoon politikon”, “não é apenas um animal social, mas, também, um animal político”. Considerando a carga de influência dos aspectos sociais e culturais na formação e estruturação de vários problemas psíquicos que afligem o ser humano, podemos aqui, retomando o pensamento do médico Vitor Pordeus (2013), colocar o social como uma parte significativa de grande importância na construção do processo de recuperação, transformação e na ressignificação do sujeito. Barroco e Superti colocam que:

A arte é o social em nós, e se o seu efeito se processa em um indivíduo isolado, isto não significa de maneira nenhuma, que suas raízes e essência sejam individuais. ...o social existe até onde há apenas um homem e as suas emoções... (BARROCO & SUPERTI, 2014, p. 24).

A inserção da arte, neste sentido, tem uma conotação de confrontação, de inserção da cultura para a desconstrução daquilo que se encontra disfuncional por conta de aspectos oriundos da própria cultura. Para Pordeus (2013), por um lado, se a cultura, através das imposições, das exigências e conflitos, tem a capacidade de levar o ser humano ao desajuste, por outro lado, parte dela tem significativo valor representativo no que diz respeito às construções e desenvolvimento desse mesmo ser humano. Segundo Roos & Moutinho (2015):

As verdades não existem ao acaso, elas existem porque algum dia alguém as construiu. E se alguém as construiu é porque elas podem também ser desconstruídas. Esta escrita é parte de um processo de desconstrução do que até então entendíamos por arte. Mas quem foi que disse que arte é apenas representação? Arte pode ser isso. Mas arte pode ser aquilo, mais aquele outro e aquele outro...

Um bom encontro. Um bom encontro seguido de outros diversos. Um encontro que provocou desacomodações. Um encontro de afecções. Um outro olhar para a arte, para o corpo. Uma outra maneira de habitar uma vida. Um corpo potente. (ROOS & MOUTINHO In: MUNHOZ & COSTA, 2015, p. 9)

O resgate que vem a ser proposto pela inserção da arte-terapia no contexto de trabalho e atuação dos profissionais apresentados nos relatos, é um resgate não apenas do potencial criativo e funcional do ser humano, mas, de uma forma mais ampla, um resgate daquilo que permeia a nossa existência, o fruto de nosso convivo em sociedade e nossa marca diferencial em relação aos outros seres vivos deste mundo, a cultura em seus aspectos funcionais e potenciais:

Desse modo, a arte e os instrumentos culturais servem a humanização dos homens e ao desenvolvimento de sentidos novos como os amores, as paixões, a amizade. Portanto, somente com a construção dos objetos culturais e artísticos e que ficam afirmadas as características estritamente humanas, com necessidades além das naturais. (BARROCO & SUPERTI, 2014, p. 27).

Assim, o que a Arte-terapia vem para nos dizer, isso através das propostas alternativas que foram apresentadas, é que muito do adoecimento psíquico e espiritual que atualmente aflige ao ser humano, se encontra alicerçado em práticas cotidianas que induzem para uma vida de muita pouca criatividade ou de produção voltada para a autossatisfação e para a realização de si. Egocentrismo, exclusão, preconceitos, homogeneidade, padrões de comportamento, capitalismo narcisista, controle social, falência do senso de coletividade originário das sociedades primitivas, entre outros fatores que corroboram para a loucura existencial que aflige o homem pós-moderno (Pordeus, 2013).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O convívio social, com toda a diversidade de conflitos, interesses, e problemas gerados pela heterogeneidade de seus elementos formadores, acarreta em distúrbios, danos que afligem aqueles que se encontram em desconexão com as necessidades e normas regidas pelo convívio nos grupos. A sociedade fabrica suas necessidades, porém, também produz suas próprias mazelas e sofrimentos.

A arte se constitui como um dos pilares estruturais das diferentes culturas e sociedades humanas ao longo de toda a sua história. Através deste trabalho pudemos observar que as diferentes práticas apresentadas nos trazem para um resgate proposto pela arte terapia, a de utilização de aspectos da cultura humana, voltados para o cuidado do homem, através daquilo que se tem de melhor na cultura. A Arte-terapia não é apresentada aqui como uma substituta ou uma metodologia mais eficiente para o acolhimento e tratamento dos sofrimentos psíquicos.

O intuito é manter esta ferramenta para a luz da constante discussão, para uma proposta de descobertas e redescobertas que permitam a formação de reflexões que possibilitem uma expansão dos horizontes de aplicabilidade e de utilização da arte em seu estado mais natural como parte de uma gama de ferramentas de apoio ao sujeito que sofre e que demanda uma forma mais manifesta, livre e dinâmica de expressão.

Além disso, apesar de toda uma produção existente sobre a Arte-terapia, e de esta se encontrar em uma realidade de grande contribuição, Reis (2014), chama a atenção para o fato de ainda haverem grandes lacunas quanto a discussão da Arte-terapia no âmbito das graduações, sendo que, geralmente, o conhecimento, mesmo que fundamental sobre essa área, se encontra mais concentrado em cursos de especialização ou pós-graduações.

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