O diabo do capital e a cura do mundo

Publicado por Luís Paulo Brabo Lopes em 29/5/2018

É assim que faz o diabo do capital. Vai se infiltrando nas culturas sorrateiramente, prometendo algo bem melhor do que elas poderiam criar por si próprias. Bota em cheque os pilares da tradição através de causas justas; que visam desenraizar toda uma população em relação à própria ancestralidade. É como um Cavalo de Troia, a investida do diabo do capital nas culturas; um presente pomposo que destrói as culturas por dentro. Chega como uma promessa de glória, riqueza e progresso; que desenraíza a população em relação às próprias origens e a captura na lógica diabólica do "mercado". A partir daqui, os valores tradicionais foram perdidos em sua essência. Os indivíduos, privados de suas raízes, secam. Adoecem. Se tornam meras engrenagens do capital. E vem as medicações psiquiátricas para garantir seu enquadramento neste mundo individualista e adoecido. Vivem como mortos; sobrevivem sem nunca viver de fato; trabalham e retornam às suas casas. Fechados dentro de quatro paredes, com a tecnologia estendida como cortina a evitar que vejam a própria miséria. A tradição permanece quase como uma questão meramente estética; já que o fundamento central repousa no veneno da ganância insaciável e na redução do outro a condição de mero objeto para uso pessoal. Um funcionamento escancaradamente antissocial!

Eis que na vitrine diabólica do capital temos árabes, indianos, japoneses, americanos, etc. Globalização não passa de uma dominação cultural sem precedentes que esmaga as tradições e implanta no lugar delas a lógica de funcionamento devoradora do capitalismo; atravessando cada indivíduo e, assim, determinado que funcionemos nesta mesma lógica. Qual o antídoto para essa situação?! Difícil pensar em uma solução global. Não me aventuro nestas searas. Mas no nível micropolítico, repetiria a pergunta da seguinte maneira: como me curar desta doença coletiva que faz com que eu deixe de ver o outro como sujeito? A resposta que encontro é: cultivando o respeito. Assim pode surgir novamente a noção de comunidade; para superar a prisão solitária do individualismo que nos adoece. Não a toa o amor, em nossa tradição, é visto como um caminho para a salvação. Amar o próximo como a si mesmo é, de fato, um imperativo impossível; mas também, uma utopia que nos move na direção de reconhecer e respeitar o outro. Um esforço consciente, ou melhor, um compromisso ético em ver o outro para além dos estigmas sociais, da invisibilidade seletiva e de nosso próprio narcisismo; que nos liberta progressivamente do ensimesmamento doentio do nosso tempo. Faz com que possamos aproximar o pensamento do coração. Aí está a verdadeira revolução!

Há alguns meses, escrevi um poema que sintetiza em imagem esse texto. Achei que valeria compartilhar junto:

Um parasita crepuscular
Com um milhão de tentáculos
Insaciável voracidade
Fez do mundo seu lar

Nos agarrou pelo pé
Deixou-nos de ponta cabeça

Veja aquele que foge
Desesperado por sua vida
É por ele abraçado
Espremido até ser sufocado
Preso em seus tentáculos

É um parasita onírico
Vem em sua dança hipnótica
Embalando nosso sono
Implantando nossos sonhos

Nos dita o que ser
Os caminhos por onde pensar
Tudo o que devemos querer

E queremos
Pedimos mais, vorazes
Nos tornamos esse tipo de diabo

O beijo mortal do vampiro
Leva embora o mel da vida
Promessa de ouro e glória
Àqueles que estão no serviço

Aos maus servidores
O furor suicida
Aos que escapam
Resta as ruas ou o hospício

Como resistir à loucura desse mundo?
Rogo aos céus!
Deve haver um caminho

Sua cura é a cura do mundo
Cantou o querido passarinho
Ecoou uma melodia

Escute essa multidão de vozes
Os totalmente desprezados
Esquecidos, silenciados

Eles sabem
Não sabem que sabem
Mas, sabem

O segredo do mundo