Cuidado consigo mesmo. O inimigo só vem de dentro.

Publicado por Vitor Pordeus em 1/4/2018

"Você estuda mitologia?" Perguntou Carl Jung a Nise da Silveira em sua primeira conversa em 1957"pois se não estudar mitologia não reconhecerá os delírios e as imagens que seus pacientes expressam."

As sombras inconscientes atacam de rebote. Cada avanço, cada aprendizado, cada prazer, é seguido por um ataque de retrocesso, ignorância e dor. Ao psiquiatra deverá exigir extremo auto-conhecimento, conhecimento de suas sombras, de seus medos, de seus traumas, para à frente com a crise do paciente, não reativar seus traumas junto e deixar a casa explodir. "Você estuda mitologia?" Perguntou Carl Jung a Nise da Silveira em sua primeira conversa em 1957"pois se não estudar mitologia não reconhecerá os delírios e as imagens que seus pacientes expressam."

Nossa grande dificuldade hoje em nossa cultura sem história, sem mitos, sem ritos é justamente restaurar este conhecimento para que tenhamos capacidade de lidar com as dificuldades para além do surto violento como está sendo no Brasil, com uma população de 200 milhões de cidadãos completamente desequilibrados, uns muito a cima outros muito a baixo, mais muito poucos no meio do campo fazendo o diálogo.

Se quisermos bem suceder, observando experiências psiquiátricas autênticas, para além do marketing farmacêutico, como de Jung e Silveira, veremos que eles trabalhavam os pacientes através da identificação de paralelos da história clínica com arquétipos mitológicos, (formas e conteúdos sistematicamente conservados através das culturas e das gerações). Isto esta demonstrado massivamente nas imensas obras experimentais e teóricas tanto de Jung quanto de Nise, totalmente disponível ao entendimento e prática cidadã. O Museu de Imagens do Inconsciente, um mapa dos arquétipos, segue resistindo como pode à decadência do hospício da prefeitura do Rio de Janeiro. Triste Bahia da Guanabara. Ó quão dessemelhante.

Nossas sombras são nossos personagens ocultos, nossos monstros, heróis, bruxas, vampiros, princesas, que todos carregamos dentro de nós, fazem parte de nossa constituição corporal e psíquica. Conforme nossa sociedade moderna foi destruindo o saber tradicional das comunidades com a fogueira da inquisição e os tiros das guerras, fomos perdendo contato com as sombras, com os mitos, com as estruturas profundas de nossa própria identidade individual e coletiva, todos somos Dionisos, todos somos Faustos, todos somos Hekate-Demeter-Persefone. E então acontece a famosa "Projeção da Sombra" que é um mecanismo psicológico descrito por Jung poderosamente importante em tempos polarizados dominados pelas sombras em que vivemos. A pessoa não tem contato com sua própria sombra e a vê projetada no outro. Como um espelho de conteúdo psíquico vemos no outro o que nós próprios projetamos, emitimos, enviamos como energia e conteúdos psíquicos. Aí reside o início das brigas e das guerras, cada vez mais ignorantes de nós próprios, vamos colocando a responsabilidade sempre no outro. O diabo é sempre o outro. Nossa cultura de acusações e competições está baseada nesta certeza e por isso está condenada ao apocalipse da corrupção permanente. A não ser que cure.

Ora, em minha experiência com teatro, os arquétipos aparecem como personagens, personagens-sombras que perseguem e invadem cada ator-ser humano, onde todos são pacientes psiquiátricos e todos são terapeutas, pois cada um carrega suas sombras e cada um tem o desafio de exprimí-las e conhecê-las, em ambiente favorável, de livre-expressão, colaboração e diálogo. Exprimir sua própria sombra, interpretar seus próprios personagens, ser um dia Dionisos, o outro Hermes Trismegistus, o outro Hamlet, o outro Galileu, no outro Nise da Silveira, no outro Baruch Spinoza e encontrgar com nossos ancestrais vivos, em ação, em criação, em "Lila" brincadeira sagrada em sânscrito, realmente é um desafio, é uma trajetória de herói, construída em 7 cabalísticos anos de trabalho dentro do labirinto do hospício do município do Rio de Janeiro. Imagine recriar e reviver as mortes e os renascimentos de cada personagem, as tragédias, as comédias, os dramalhões.

Através de linguagem improvisada conforme treinamento com Amir Haddad e o encontro com as imagens do inconsciente de Nise da Silveira, podemos verificar a expressão terapêutica de arquétipos em forma de personagens sombrios e luminosos que é despotencializadora de energias psíquicas negativas de forma sistemática.

A experiência demonstra. O que falta agora? Sair da fofoca e penetrar em nossas próprias histórias utilizando o método de Jung, demonstrado por Nise e restaurado por meu grupo através de drama.

Agosto promete: Re-Implantação da rotina já bem sucedida experimentalmente na Teatro Clíncia Therezinha Moraes e historicamente no Hotel da Loucura experiência linda que foi vampirizada e destroçada pela ganância no hospício da secretaria de saúde dominada pelos Drs. Faustos.