Sobre o encontro do Dragão com Dionisio

Publicado por Nathali Corrêa Cristino em 25/3/2018

Relembrar nossa história, sempre

O grupo de Teatro Dragão Valente foi criado em 2013, a partir de uma demanda dos usuários do CAPS onde trabalho, que desejavam participar desta atividade. Neste ano uma Fundação da cidade estava oferecendo aulas de teatro para a comunidade e, tendo em vista a vontade dos usuários em desenvolver este trabalho, pensamos em estabelecer uma parceria com esta instituição. Entretanto tal parceria não foi possível e o início de nossas atividades teve que esperar por outros protagonistas.

Em agosto, do mesmo ano, recebemos no CAPS a visita de uma atriz, radialista, moradora da cidade, que propôs realizar um trabalho voluntário, junto aos usuários, para conduzir a oficina de teatro. Iniciamos o trabalho, que teve uma grande adesão, havia dias que frequentavam a oficina cerca de vinte pessoas. Nessa época a atriz nos propôs a construção de um dragão gigante com material de reciclagem, para a utilização numa peça sobre Dom Quixote. Estávamos envolvidos na confecção deste dragão quando resolvemos escolher o nome do grupo. Várias ideias surgiram mas, por votação, ficou escolhido o nome companhia de teatro Dragão Valente.

Entretanto, essa atriz atravessou alguns problemas pessoais e não pôde continuar à frente do projeto. Diante de tal situação, discutimos o assunto em reunião de equipe e ficou decidido que eu mesma, como sou psicóloga deste CAPS e estava à frente do projeto desde o início, iria buscar me capacitar para dar continuidade à oficina.

Foi desta forma, enquanto eu realizava cursos de teatro no Rio de Janeiro e em Juiz de Fora, levando o que fora aprendido para o CAPS, que a oficina foi construída. Através da interação e da experimentação dos jogos e exercícios, minhas habilidades para o trabalho com teatro foram, pouco a pouco, desenvolvidas junto com as potencialidades dos usuários. Construímos, assim, nosso saber e ação de forma compartilhada, através do diálogo e da experimentação cotidiana.

Importante salientar, que a oficina de teatro do grupo Dragão Valente, inicialmente era realizada numa espécie de varanda que existe nos fundos do CAPS. Foi num dia de inverno, onde o local no qual nos reuníamos estava terrivelmente frio que um usuário teve a ideia de levarmos a oficina pra fora da instituição, para podermos nos aquecer ao sol. A partir deste dia começamos a realizar a atividade todas as quintas feiras de manhã, no Horto da cidade, um local arborizado e agradável, no qual nos sentíamos mais confortáveis. Além de proporcionar mais conforto, a saída do CAPS foi um marco importante para a atividade, pois a levou a ser inserida no território da cidade, dando visibilidade ao trabalho, além de proporcionar interações importantes com a comunidade.

No início, nos direcionamos pela metodologia do Teatro do Oprimido, visto se tratar de uma dramaturgia que estimula o potencial de desenvolvimento e criatividade de quem a emprega e estar aberta para a utilização de qualquer um, atores e não atores. Além disto, tínhamos conhecimento de que esta metodologia já havia sido usada em vários dispositivos de Saúde Mental do país, com resultados muito significativos e ainda, conforme íamos nos aprofundando no conhecimento, entendíamos que, além de técnicas que possibilitavam o desenvolvimento de peças teatrais, o Teatro do Oprimido se destacava pelo seu caráter de promotor de intervenções sociais, instigando a criação de obras que estimulam o debate acerca das condições de opressão, às quais muitos grupos sociais estão submetidos.

Somado ao aprendizado construído, através da participação em oficinas, no Centro do Teatro do Oprimido no Rio de Janeiro e à leitura dos livros de Augusto Boal sobre este tipo de intervenção teatral, pude estar presente, também, em dois encontros, que aconteciam anualmente, no Instituto Psiquiátrico Nise da Silveira, também no Rio de Janeiro, reunindo artistas, usuários, cuidadores e profissionais de Saúde Mental de todo o país.

Estes encontros, chamados Ocupa Nise, aconteciam em setembro e sendo realizados em dois andares dentro do Instituto, que foram desativados e ocupados, redimensionados e caracterizados por coletivos artísticos da região. Sob a coordenação do médico Vitor Pordeus, criou-se nestes espaços o Hotel e Spa da Loucura, um local que realizava atividades permanentes de arte cultura e Saúde Mental e oferecia hospedagem gratuita a artistas e profissionais que, em contrapartida, pudessem disponibilizar alguma atividade, conhecimento ou tempo aos usuários que lá frequentavam.

O Instituto Nise da Silveira era sede do grupo de teatro de DyoNises, coordenado, também, por Vítor Pordeus, e composto por clientes, trabalhadores de Saúde Mental e atores do Rio de Janeiro, recebendo contribuições de uma rede de pessoas, envolvidas no trabalho com arte, ancestralidade e saúde, espalhadas por todo o país. Este grupo faz montagens de peças teatrais e as apresenta em espaços da cidade, promovendo o diálogo com a população e o desbravamento do território, recriando as estéticas da cidade enquanto promove a luta contra estigmas e preconceitos sociais.

Além disto, o Hotel da Loucura era sede, também, da Universidade Popular de Arte e Ciência, uma proposta diferenciada de compartilhamento de saberes que interliga sujeitos envolvidos em ações artísticas, culturais e de saúde de todo o Brasil e, também de outros países, como Argentina, Peru, Colômbia, Canadá e Inglaterra. Praticando a ideia de saber compartilhado, esta Universidade nada convencional, funciona através do diálogo entre seus diversos atores sociais e promove ações em várias cidades, percorrendo os mais distintos territórios com sua metodologia inovadora e provocadora de questionamentos.

Todas estas propostas, que têm suas raízes no Instituto Nise da Silveira, mas espalham seus galhos, flores e frutos pelo Brasil e pelo mundo afora, tem como eixo em comum a importância do afeto e da alegria no cuidado, assim como a valorização do resgate e estímulo à cultura popular e à ancestralidade como formas de se promover a criação de uma identidade mais genuína aos povos, que diminua o consumo impensado de culturas estrangeiras, consumo este que tem como conseqüência a alienação, massificação e adoecimento dos sujeitos.

O contato com estes trabalhos trouxe a possibilidade de ampliação e desenvolvimento de minha proposta de atuação no CAPS. Participando desta rede, pude também, compartilhar a experiência do grupo que coordeno com outros grupos que trabalham propostas semelhantes, trocando ideias e aprendizados com pessoas de todo país, nos comprometemos a expandir o movimento em direção a modificações estruturais na realidade de nossa sociedade.

Assim o caminho do trabalho foi sendo tecido. Inicialmente, utilizamos muito de jogos e exercícios teatrais do arsenal do Teatro do Oprimido. Jogos que podem ser encontrados, em sua maioria no Livro de Augusto Boal “Jogos para atores e não atores”(2012). Com o passar do tempo, começamos a criar nossos próprios jogos, baseados em dramatizações de situações que ocorriam com os usuários cotidianamente, e também em fatos do território e família. Reconstruindo o mundo através das técnicas teatrais, tornávamos a realidade mais acessível e posta como matéria a ser discutida por todos.

Deste trabalho montamos nossa primeira peça, ainda baseada na metodologia do Teatro Fórum vinda do Teatro do Oprimido. Uma peça que dramatizava uma situação real vivida por um dos usuários e buscava a intervenção da platéia para propor respostas e instaurar debate.

Pouco a pouco fomos nos afastando da metodologia do Teatro do Oprimido e inserindo o trabalho de Cenopoesia e o método SHABESS utilizados por Vitor Pordeus no Teatro de Dyonises. A Cenopoesia, nascida dos grandes mestres do Ceará Ray Lima e Junio Santos, trouxe a ludicidade e a espontaneidade do uso da poesia, da expressão teatral e do improviso como formas de atuação, trazendo mensagens repletas de sensações e imagens a cada proposta de intervenção.

O método SHABESS, de forma resumida, trata-se de uma forma de trabalho teatral que reúne propostas de atuação que proporcionem efeito terapêutico, visto tocarem em personagens que mechem no fundo da psique humana, trazendo conteúdos preciosos para o entendimento de relações e padrões de adoecimento individuais e coletivos, promovendo, acima de tudo, a estimulação de aspectos saudáveis que possam trazer uma direção para a melhora de diversos quadros psíquicos.

O método SHABESS reúne o trabalho e proposições de Shakespeare, Amir Haddad, Artaud, Brecht, Eurípedes, Nise da Silveira e Spinoza. Este método chegou ao Teatro Dragão Valente libertando o grupo da dependência de protagonistas específicos para as peças, e trazendo maior possibilidade de experimentação de papéis e consequente ativação de um maior número de possibilidades de expressão. Agora todos seriam protagonistas, os papeis seriam escolhidos na hora da apresentação ou ensaio, de acordo com a necessidade sensível de cada um no momento.

A liberdade oferecida pela Cenopoesia e pelo método SHABESS facilita o advir de conteúdo terapêutico, pois abre espaço ao novo, ao improviso, ao espontâneo. A Cenopoesia e o método se aliam, configurando-se como um método de instigação, onde se pode utilizar dança, canto, dramatização ou poesia, num fluxo dramático a ser construído no momento próprio da interação.

O método SHABESS apresenta uma história, um mito a ser contado a priori. Entretanto, também não possui pessoas fixas a personagens. Os personagens são tomados pelos atores no decorrer da narração da história, trabalhando conteúdos arquetípicos profundos, tendo por base a psicologia de Nise da Silveira e Jung.

Atualmente, estamos trabalhando a peça “Jonas e o Dragão-Baleia”, baseada no mito do herói devorado pelo cetáceo, que se trata de uma história presente e narrada em diversas civilizações. Nise da Silveira utilizou esse mito em sua primeira experiência com teatro no Hospício do Engenho de Dentro, com o usuário Fernando Diniz, e obteve resultados muito positivos. [Vide “O tema mítico do dragão-baleia” pgs 182 a 217 do livro Imagens do Inconsciente (2015) de Nise da Silveira].

Montamos as cenas de forma coletiva, utilizando cantigas populares e músicas do folclore e conhecimento ancestral. Pouco a pouco a peça vem tomando forma, ao mesmo tempo em que oferece vazão terapêutica a conteúdos inconscientes dos sujeitos envolvidos.

O corpo sempre em movimento, o canto a dança, o gesto e a palavra. Trabalhamos um método cuidadoso que nos revela o caminho conforme caminhamos. Baseado, sobretudo no tripé formado por ancestralidade, afeto e criatividade, tecemos novas formas de linguagem, relações mais amorosas e sinceras, resgate da própria história e capacidade de construção do mundo.

Nesses quase cinco anos de grupo, temos verificado resultados terapêuticos animadores naqueles atores/clientes que estão conosco desde o início, e também nos que participam de forma esporádica. Aos mais antigos, as crises tornaram-se raras ou inexistentes, a todos se desenvolve um sentimento de amizade e pertencimento, que possibilita a ajuda mútua e o desenvolvimento da empatia com o outro. As relações sociais são aprimoradas, a expressividade torna-se mais genuína. Vemos clientes desenvolvendo cidadania e noções de solidariedade e cooperação, começando a entender o seu papel na construção do mundo e tomando suas próprias emoções não mais como monstros que necessitam ser calados, mas como parte fundamental da experiência de ser humano, que podem ser acolhidas e trabalhadas de forma a possibilitar uma vida mais feliz. Assim temos por preciosidade as peculiaridades de cada um, respeitando suas formas autênticas de estar no mundo. Não interessa mais sermos apenas observadores da ação alheia sobre nós, queremos ser atores de nossa própria vida, construtores do mundo que merecemos.